segunda-feira, 11 de março de 2013

Reflexões sobre Empregabilidade no contexto histórico e no atual


Reflexões sobre Empregabilidade no contexto histórico e no atual

O fato de o emprego formal ter dominado o cenário mundial, principalmente no mundo ocidental, desde a revolução industrial, fez com que padrões condicionados, previsíveis e até mesmo "desejáveis" de comportamento fossem adquiridos pela maioria das organizações profissionais e por seus colaboradores:
  • Padronização da organização do trabalho; especialização; forte ênfase na hierarquia; cargos e funções; especialização técnica; controle de resultados centrado na análise quantitativa; fragmentação do pensamento; compartimentalização de ideias, pessoas e estruturas; linearidade, etc.
Porém já no final do século XX este cenário apresentou drásticas transformações, nunca antes vistas, que estão afetando profundamente os mais variados aspectos do cotidiano, com relevantes alterações na relação emprego e trabalho.

Não é preciso descrever quais são estas transformações, pois o bombardeio de notícias nos mantem constantemente atualizados sobre elas. Mas vale a pena ressaltar as constatações deste estudo, realizado por Maria Célia Lassance e Mônica Sparta, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

...“ De acordo com De Masi (1999a), a sociedade industrial foi uma fase breve na história da humanidade, que teve início no final do século XVIII e chegou ao fim na metade do século XX. A segunda metade deste século foi um momento de transição entre a sociedade industrial e uma nova ordem sócio-econômica da sociedade capitalista, que vem despontando na atualidade, no início do século XXI. De Masi (1999a, 1999b) denomina esta nova ordem de sociedade pós-industrial, enquanto Harvey (1989/1996) a chama de acumulação flexível.

Para De Masi (1999b), o embrião da sociedade pós-industrial surgiu na Europa, ainda na primeira metade do século XX, durante o ápice da produção industrial norte-americana baseada nos princípios da organização do trabalho do modelo taylorista-fordista. Na Europa, inovações nos campos das artes e das ciências trouxeram a revalorização da criatividade e da emoção. Inovações na literatura e na música surgiram com Joyce e Stravinsky; nas artes plásticas, Picasso revolucionou com o Cubismo; Freud com a criação da Psicanálise propôs uma nova forma de compreensão do homem; Einstein com a Teoria da Relatividade inaugurou a física moderna. Novas idéias sobre a organização e as relações de trabalho, baseadas na criatividade e na busca de qualidade de vida, começaram a despontar neste ambiente.

Durante a segunda metade do século XX, com a decadência da sociedade industrial e a revalorização da criatividade, a Orientação Profissional tomou novos rumos. Em primeiro lugar, a influência da Terapia Centrada no Cliente de Carl Rogers, que pregava a não-diretividade dos processos psicoterápicos e do aconselhamento psicológico, influenciou sobremaneira a visão sobre os papéis dos sujeitos da Orientação Profissional, pelo deslocamento do lugar do saber e da decisão do orientador para o orientando. Em segundo lugar, o surgimento da idéia de que a escolha profissional é um processo integrado ao desenvolvimento vital do sujeito, através das Teorias Evolutivas, cujo representante mais importante foi Donald Super (Brown & Brooks, 1996; Super & Bohn Jr., 1970/1976). O foco da Orientação Profissional transferiu-se da produção resultante para o sujeito de escolha, sendo a eficiência e a produtividade tomadas como consequências naturais de uma escolha adequada, centrada na satisfação e nos sentimentos de realização do indivíduo.

Além da revalorização da criatividade e da emoção, o crescimento da classe média, não previsto por Marx e Engels, e o desenvolvimento tecnológico, principalmente da microeletrônica e da informática, foram fundamentais para a transição da sociedade industrial para a pós-industrial (De Masi, 1999a, 1999b). O capitalismo pós-industrial contemporâneo apresenta novas características, que são apontadas por diversos autores (De Masi, 1999a, 1999b; Harvey, 1989/ 1996; Jenschke, 2001; Lassance, 1997; Lisboa, 2000, 2002; Pochmann, 2001; Sarriera, 1998; Silva & Magalhães, 1996). A sociedade capitalista atual é pautada pelo aumento do setor terciário ou de serviços; pela globalização da economia; pelo modelo enxuto de empresa; pelo uso de tecnologias de ponta, como eletrônica, telecomunicações, informática, biotecnologia; pela alta produção de bens não-materiais, como serviços, informação, educação, estética. Em consequência destas mudanças, postos de trabalho na indústria vêm diminuindo e o decréscimo do emprego estrutural vem gerando desemprego e dando lugar ao trabalho autônomo e à economia informal; ocupações antigas vêm desaparecendo e novas vêm surgindo a cada dia. Estas mudanças no mundo do trabalho geram instabilidade e exigem do trabalhador uma série de novas habilidades para a empregabilidade, como flexibilidade, polivalência, capacitação tecnológica, adaptabilidade. A organização, a estabilidade, a certeza, a previsibilidade, ícones da sociedade industrial, foram substituídas pela flexibilidade da produção e das relações de trabalho, que passaram a ser guiados pelas flutuações do mercado de consumo.

Esta nova ordem econômica mundial trouxe consigo uma onda de individualismo, que vêm enfraquecendo as organizações sindicais na luta pela defesa dos direitos dos trabalhadores e vêm provocando um retrocesso em termos dos direitos sociais anteriormente conquistados. Espera-se cada vez mais do trabalhador e se oferece a ele cada vez menos. Ao mesmo tempo em que a sociedade pós-industrial seduz com seu discurso de que o trabalho deve estar vinculado à busca por qualidade de vida, mantém um contingente cada vez maior de indivíduos à margem do processo produtivo...   O Brasil vem sofrendo consequências específicas desta nova ordem econômica mundial. De acordo com Pochmann (2001), nas décadas de 1980 e 1990 houve um grande aumento do desemprego no setor industrial, enquanto o setor de serviços evoluiu notavelmente. No entanto, o incremento do setor terciário não foi suficiente para arrefecer o fenômeno do desemprego estrutural que vem assolando o país. Paralelamente, alguns autores têm analisado as características do jovem brasileiro que vai aos serviços de Orientação Profissional em busca de auxílio para a escolha de uma profissão. Este jovem é conservador, individualista, não se preocupa com mudanças sociais, deseja realização pessoal, prazer no trabalho, estabilidade profissional e conforto material (Lisboa, 1997; Silva & Magalhães, 1996). Este jovem busca a escolha de um curso superior que lhe garanta acesso ao mercado de trabalho através da conquista de um emprego estável e bem remunerado, no qual permaneça por toda a vida (Lassance, 1997). Este jovem busca uma permanência e rigidez que já não existem na nova sociedade pós-industrial.


A partir deste panorama, vale aqui uma reflexão sobre o atual contexto dos profissionais brasileiros:

·         Quantos conhecidos nossos, nos dias de hoje e na faixa dos 40 anos, estão trabalhando na mesma empresa em que iniciaram suas carreiras?
·         Quantos se sentem estáveis profissionalmente? 
·         Com relação aos que "triunfaram" na conquista da estabilidade de trabalho, quantos estão satisfeitos e realizados nos trabalhos que realizam?
·         E sobre os jovens profissionais? O que devem fazer com relação ao seu futuro profissional?
·         Quais são os verdadeiros valores e propósitos de vida dos profissionais experientes e os dos iniciantes?
·         Quais são os possíveis cenários de mercado de trabalho para todas as classes de profissionais no Brasil?

“Procurar trabalho ao invés de emprego, clientes no lugar de empregadores e ancorar sua carreira na concretização dos seus valores e propósitos mais profundos. Este é um caminho possível para aqueles que constroem valor por meio da consultoria, emprestando suas experiências, competências e habilidades às organizações e a seus líderes.” Rogério Cher.

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