Reflexões sobre Empregabilidade no contexto histórico e no atual
O fato de o emprego formal ter dominado o cenário mundial,
principalmente no mundo ocidental, desde a revolução industrial, fez com que
padrões condicionados, previsíveis e até mesmo "desejáveis" de
comportamento fossem adquiridos pela maioria das organizações profissionais e
por seus colaboradores:
- Padronização da organização do trabalho; especialização; forte
ênfase na hierarquia; cargos e funções; especialização técnica; controle
de resultados centrado na análise quantitativa; fragmentação do
pensamento; compartimentalização de ideias, pessoas e estruturas; linearidade,
etc.
Porém já no final do século XX este cenário apresentou drásticas
transformações, nunca antes vistas, que estão afetando profundamente os mais
variados aspectos do cotidiano, com relevantes alterações na relação emprego e
trabalho.
Não é preciso descrever quais são estas transformações, pois o
bombardeio de notícias nos mantem constantemente atualizados sobre elas. Mas vale
a pena ressaltar as constatações deste estudo, realizado por Maria Célia Lassance e Mônica Sparta, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
...“ De acordo com De Masi (1999a), a sociedade industrial foi uma fase
breve na história da humanidade, que teve início no final do século XVIII e
chegou ao fim na metade do século XX. A segunda metade deste século foi um
momento de transição entre a sociedade industrial e uma nova ordem
sócio-econômica da sociedade capitalista, que vem despontando na
atualidade, no início do século XXI. De Masi (1999a, 1999b) denomina esta nova
ordem de sociedade pós-industrial, enquanto Harvey (1989/1996) a chama de
acumulação flexível.
Para De Masi (1999b), o embrião da sociedade pós-industrial surgiu na
Europa, ainda na primeira metade do século XX, durante o ápice da produção
industrial norte-americana baseada nos princípios da organização do trabalho do
modelo taylorista-fordista. Na Europa, inovações nos campos das artes e das
ciências trouxeram a revalorização da criatividade e da emoção.
Inovações na literatura e na música surgiram com Joyce e Stravinsky; nas artes
plásticas, Picasso revolucionou com o Cubismo; Freud com a criação da
Psicanálise propôs uma nova forma de compreensão do homem; Einstein com a
Teoria da Relatividade inaugurou a física moderna. Novas idéias sobre a organização
e as relações de trabalho, baseadas na criatividade e na busca de qualidade de
vida, começaram a despontar neste ambiente.
Durante a segunda metade do século XX, com a decadência da sociedade
industrial e a revalorização da criatividade, a Orientação Profissional tomou
novos rumos. Em primeiro lugar, a influência da Terapia Centrada no Cliente de
Carl Rogers, que pregava a não-diretividade dos processos psicoterápicos e do
aconselhamento psicológico, influenciou sobremaneira a visão sobre os papéis
dos sujeitos da Orientação Profissional, pelo deslocamento do lugar do saber e
da decisão do orientador para o orientando. Em segundo lugar, o surgimento da
idéia de que a escolha profissional é um processo integrado ao desenvolvimento
vital do sujeito, através das Teorias Evolutivas, cujo representante mais
importante foi Donald Super (Brown & Brooks, 1996; Super & Bohn Jr.,
1970/1976). O foco da Orientação Profissional transferiu-se da produção
resultante para o sujeito de escolha, sendo a eficiência e a produtividade
tomadas como consequências naturais de uma escolha adequada, centrada na
satisfação e nos sentimentos de realização do indivíduo.
Além da revalorização da criatividade e da emoção, o crescimento da
classe média, não previsto por Marx e Engels, e o desenvolvimento tecnológico,
principalmente da microeletrônica e da informática, foram fundamentais para a
transição da sociedade industrial para a pós-industrial (De Masi, 1999a,
1999b). O capitalismo pós-industrial contemporâneo apresenta novas
características, que são apontadas por diversos autores (De Masi, 1999a, 1999b;
Harvey, 1989/ 1996; Jenschke, 2001; Lassance, 1997; Lisboa, 2000, 2002;
Pochmann, 2001; Sarriera, 1998; Silva & Magalhães, 1996). A
sociedade capitalista atual é pautada pelo aumento do setor terciário ou de
serviços; pela globalização da economia; pelo modelo enxuto de empresa; pelo
uso de tecnologias de ponta, como eletrônica, telecomunicações, informática,
biotecnologia; pela alta produção de bens não-materiais, como serviços,
informação, educação, estética. Em consequência
destas mudanças, postos de trabalho na indústria vêm diminuindo e o decréscimo
do emprego estrutural vem gerando desemprego e dando lugar ao trabalho autônomo
e à economia informal; ocupações antigas vêm desaparecendo e novas vêm surgindo a cada dia. Estas
mudanças no mundo do trabalho geram instabilidade e exigem do trabalhador uma
série de novas habilidades para a empregabilidade, como flexibilidade,
polivalência, capacitação tecnológica, adaptabilidade. A organização, a
estabilidade, a certeza, a previsibilidade, ícones da sociedade industrial,
foram substituídas pela flexibilidade da produção e das relações de trabalho,
que passaram a ser guiados pelas flutuações do mercado de consumo.
Esta nova ordem econômica mundial trouxe consigo uma onda
de individualismo, que vêm enfraquecendo as organizações sindicais na
luta pela defesa dos direitos dos trabalhadores e vêm provocando um retrocesso
em termos dos direitos sociais anteriormente conquistados. Espera-se cada vez
mais do trabalhador e se oferece a ele cada vez menos. Ao mesmo tempo em que a
sociedade pós-industrial seduz com seu discurso de que o trabalho deve estar
vinculado à busca por qualidade de vida, mantém um contingente cada vez maior
de indivíduos à margem do processo produtivo... O Brasil vem sofrendo consequências
específicas desta nova ordem econômica mundial. De acordo com Pochmann (2001),
nas décadas de 1980 e 1990 houve um grande aumento do desemprego no setor
industrial, enquanto o setor de serviços evoluiu notavelmente. No entanto, o
incremento do setor terciário não foi suficiente para arrefecer o fenômeno do
desemprego estrutural que vem assolando o país. Paralelamente, alguns autores
têm analisado as características do jovem brasileiro que vai aos serviços de
Orientação Profissional em busca de auxílio para a escolha de uma profissão.
Este jovem é conservador, individualista, não se preocupa com mudanças sociais,
deseja realização pessoal, prazer no trabalho, estabilidade profissional e
conforto material (Lisboa, 1997; Silva & Magalhães, 1996). Este jovem busca
a escolha de um curso superior que lhe garanta acesso ao mercado de trabalho
através da conquista de um emprego estável e bem remunerado, no qual permaneça
por toda a vida (Lassance, 1997). Este jovem busca uma permanência e rigidez
que já não existem na nova sociedade pós-industrial. ”
A partir deste panorama, vale aqui uma reflexão sobre o atual contexto
dos profissionais brasileiros:
·
Quantos conhecidos nossos, nos dias de hoje e na faixa dos 40 anos,
estão trabalhando na mesma empresa em que iniciaram suas carreiras?
·
Quantos se sentem estáveis profissionalmente?
·
Com relação aos que "triunfaram" na conquista da estabilidade
de trabalho, quantos estão satisfeitos e realizados nos trabalhos que realizam?
·
E sobre os jovens profissionais? O que devem fazer com relação ao seu
futuro profissional?
·
Quais são os verdadeiros valores e propósitos de vida dos profissionais
experientes e os dos iniciantes?
·
Quais são os possíveis cenários de mercado de trabalho para todas as
classes de profissionais no Brasil?
“Procurar trabalho ao invés de emprego, clientes no lugar de
empregadores e ancorar sua carreira na concretização dos seus valores e
propósitos mais profundos. Este é um caminho possível para aqueles que
constroem valor por meio da consultoria, emprestando suas experiências,
competências e habilidades às organizações e a seus líderes.” Rogério Cher.